sábado, abril 01, 2006
Dia das Mentiras
Atenção, nada de confusões, não estou a sofrer de nenhuma crise de identidade sexual. Estou completamente satisfeito com o meu par, digamos, de cromossomas. Sou homem, heterossexual e sinto-me feliz e realizado nessa condição. O meu problema não é de foro sexual, mas sim, por incrível que pareça, de foro político.
Desde miúdo acalento um sonho, vir a ser eleito deputado da nação. Não imagino a razão para sonho tão estranho e tão contra-natura. Os miúdos, por norma, sonham em ser policias, bombeiros, pilotos de avião, astronautas ou futebolistas. Agora, em serem políticos é estranho ou pelo menos não é comum. Já perscrutei a minha mente até às entranhas, mas não vislumbrei a resposta para tal anormalidade. Durante anos, consultei psicólogos, psiquiatras, hipnotizadores, bruxos, espíritas e exorcistas, mas nenhum encontrou explicação para o meu “problema”. Vai daí, só me restava uma coisa, seguir o meu sonho e tentar ser eleito deputado. Para tal, pensei eu, só tenho de arranjar maneira de ser proposto numa lista partidária às eleições legislativas. Pareceu-me fácil. Puro engano, é mais fácil ver um cego chegar a árbitro de futebol. Bem, este exemplo não foi feliz, pois cegos a arbitrar é mato. Mas acreditem, de certeza que é mais fácil ver um coxo conquistar um lugar na selecção nacional. Isto, claro está, desde que o seleccionador não seja o Scolari.
Desengane-se quem julga que, para chegar a um lugar elegível, é só preciso ter competência, provas dadas, qualificações e mérito. Se isso funciona-se assim, e dou a mão à palmatória, eu nunca teria acalentado a mínima esperança de alcançar tal bênção. Sim, pois ser deputado é uma verdadeira bênção. Mas não, as batalhas, os códigos e as condutas que conduzem à elaboração das listas finais, são obscuros e insondáveis. É um jogo, por vezes viciado, de regras complicadas e paradas elevadas. Daí, ser difícil ao comum dos mortais, independentemente do sexo, raça ou credo, ver o seu nome num lugar elegível.
Depois de muitas tentativas frustradas, confesso, com o coração inundado de mágoa, abandonei o meu sonho de petiz de sentar o meu rabo num banco do parlamento. No entanto, quase por milagre, algo extraordinário aconteceu.
Na passada quinta feira o PS levou a votos no Parlamento a sua Lei da Paridade, a qual visa estabelecer que todas as listas para a Assembleia da República, Parlamento Europeu e Autarquias Locais sejam compostas de modo a assegurar uma representação mínima de 33,3% de cada um dos sexos. Um número que me faz pensar. Tendo em conta de que, no início da semana, o governo apresentou os 333 primeiros passos contra a burocracia, presumo que os socialistas têm um fetiche com a capicua 333.
Para Maria de Belém, que apresentou o projecto de lei, o objectivo é combater "todas as formas sub-reptícias de impedir a participação feminina a vários níveis". E não o estabelecimento puro e simples de quotas: "O sentimento não é esse, é antes o de abrir os partidos e a política às mulheres".
Ora aí está. Já que os partidos, pelo menos alguns, não se querem abrir as mulheres, toca a criar uma lei que obrigue as mulheres a abrirem-se aos partidos (isto não me está a soar bem). Mas isso agora não interessa nada. Trocando por miúdos, caso a lei seja aprovada, os partidos vão ter de incorporar nas suas listas, nem que seja à força, mulheres. Esta tarefa, pelo menos enquanto elas não se habituam à ideia, poderá não ser fácil. Sem dúvida, esta poderá ser a grande oportunidade para realizar o meu sonho.
Hoje é dia um de Abril e eu decidi fazer uma cirurgia para mudar de sexo!

